14 de outubro de 2008

Não precisa ser assim!

Um dia duas pessoas se conhecem, rola aquele desejo, aquele interesse em saber mais sobre o outro e começam a ficar. Tudo caminha em perfeita harmonia, sem cobranças e sem problemas. Ela é a delícia em forma de mulher, engraçada e inteligente. Ele é divertido, gato e super educado.
Daí um dia, ele ou ela (ok, em geral é ela, mas homens não escapam disso!) começam a ficar incomodados com a situação. Ficar por ficar não dá mais. Começa o controle de um sobre a vida do outro, surgem as cobranças e eles resolvem namorar.
O relacionamento intitulado “namoro” traz no pacote um ciúme devastador outrora inexistente. E quando o casal está junto ficam com “cara de bunda”, sempre irritados um com o outro. Nessa altura ela não tolera mais os amigos dele e ele não suporta mais as amigas dela. Sair com um grupo é sempre um problema, afinal, se um dos namorados conversa um segundo a mais com outra pessoa da turma já rola o discurso “você não me dá atenção”. Por isso o casal vai se isolando e consumindo um ao outro cada vez mais.
Uma das coisas que permeia o relacionamento são as brigas. A maioria delas é sem nenhum sentido: “Como assim você respirou quatro vezes sem me contar?” “Como assim você conversou com fulano sem eu estar ao seu lado?”. Praticamente existe o prazer por brigar, o prazer em criar um desconforto profundo pra depois pedir desculpinha, fazer sexo (que eles chama de amor) e tudo ficar bem até a próxima briga e assim por diante.
Nesse momento se nunca houve um rompimento, é muito comum que aconteça. Eles ficam distantes por uma semana e depois reatam, cheios de carinho e olhares apaixonados. Essa lua-de-mel dura pouco. Logo as brigas recomeçam.
Como o namoro já dura algum tempo, surge a necessidade de uma nova titulação: o noivado. Alianças trocadas, festinha pros amigos mais próximos e a promessa de uma vida feliz pela frente. Os dois acreditam que agora o compromisso nunca mais dará errado.
Mas as brigas continuam pelos mesmos motivos, e com mais força, pois a aliança é quase uma algema que impede que o outro escape. Eventos sociais não existem mais, o programa é assistir TV em casa. Na verdade os dois têm vontade de sair e têm dinheiro para isso, mas ela não sairá com os amigos boçais dele ou ele não sairá com as amigas frívolas dela. A frustração atinge níveis alarmantes.
Em geral nessa época, depois de uma briga de grandes proporções eles terminam mais uma vez. É claro que reatam logo, afinal o noivado tem muito mais peso que o namoro. A felicidade reina por um breve momento para que os conhecidos arranca-rabos, as cobranças e os problemas voltem a fazer parte do dia-a-dia.
Como o noivado é a porta aberta para marcar a famosa “data”. Os dois sentam, discutem com ardor e fúria até definirem quando será o dia do casamento. O grau de empolgação dos envolvidos geralmente é diferente, sempre tem um lado que se sente despreparado, pressionado ou abandonado.
Nesse ponto as brigas até diminuem um pouco: são tantas as tarefas a serem cumpridas para que tudo saia perfeito que eles (que já não conversavam muito), não têm tempo para inventar problemas e brigar. Só brigam para impor o que querem sobre um ou outro detalhe da festa.
Chega o dia. Trocam juras, promessas de eterno respeito, fidelidade e felicidade. Lindo.
No começo, como era de se esperar, é uma plena lua de mel. Mas depois de algum tempo convivendo juntos, dormindo e acordando um ao lado do outro, começam mais uma vez as discussões. Da parte dela: ela queria que ele mudasse depois do casamento e ele não mudou. Da parte dele: ele queria que ela não mudasse depois do casamento e ela mudou. O pau rola solto. Não precisam mais discutir no carro (longe da casa dos sogros) agora eles tem sua própria arena para digladiarem à vontade.
Como, mais uma vez, as coisas não estão indo bem, um filho poderia resolver o problema, afinal na novela, o final feliz é abençoado com um filho.
E toca os dois começarem tratamento para ela poder engravidar. E encontram simpatias, tomam remédios e fazem sexo automático (não chamam mais fazer amor): o importante é procriar com o papai plantando a sementinha na mamãe.
As brigas, que nunca cessaram, agora têm outro tema: o filho e tudo o que se refere a ele: seja a cor do quarto ou o nome. Tudo é tenso. E um dia nasce o bebê.
A vida segue, com discussões abafadas para que o filho pequeno não perceba. Como as responsabilidades aumentam, o casal fica cada vez menos tempo em casa e conseqüentemente juntos. As brigas nunca acabam. Elas acontecem nos poucos momentos de reunião familiar. O filho (agora mais velho) vai aprendendo como é a vida observando os pais.
Alguns anos depois, a situação está insuportável. Ela detesta aquele trolha que afundou sua vida, que acabou com sua juventude e que a deixou gorda fazendo um filho nela. Ele repudia aquela lazarenta que o afastou dos amigos, que sugou suas energias e que o obrigou a fazer escolhas infelizes.
Não se olham mais, dormem em quartos separados e usam o filho como mensageiro.
Um dia chegam à conclusão que devem acabar com tudo: a separação é inevitável.
Contratam um advogado, separam os bens, definem a guarda do filho. Mas não deixam de brigar: ou pela nota da criança ou pela pensão que atrasou.
Agora estão livres para uma nova vida.
A diferença é que acabaram tarde demais o que foi um fracasso desde o início. A teimosia, a burrice ou o egoísmo fez com que ao final da história três corações saíssem feridos e não apenas os dois que criaram e alimentaram uma vida desafortunada.
E esse terceiro coração será igualzinho aos pais (seus maiores professores sobre o amor) e pode ter certeza que ele namorará sua filha, que será igualzinha a você.

Este texto foi publicado no Gaborin Gaboriela. Se você leu em qualquer outro lugar sem os créditos, ele foi surrupiado sem autorização! 

2 falatórios:

:marina: disse...

ótimo!

Francisco Castro disse...

Olá, gostei muito do seu blog. Ele é muito bom.

Parabéns!

Um abraço

Postar um comentário

Opinem, desabafem, reclamem, etc...
Mas vamos ser finos, ok?
Comentário barraqueiro será excluído! Aqui eu sou a soberana!
Beijinhos na alma!
Gaborin